Um local imperdível. Tudo o que existe encaixa na perfeição neste lago que, como um camaleão se altera, de estação em estação.
O verde absoluto quando o tempo assim permite é substituído por um branco que não podia ser mais colorido no inverno.
Aqui qualquer artista medíocre pintava um fantástico quadro. Qualquer patético escritor compunha a mais bela prosa, que automaticamente se transformava em poesia.
A ilha, uma igreja, transforma as remadas que se dão até lá, nos pequenos barcos que se alugam, em esforço fácil. Ninguém consegue ficar cansado quando se apercebe que está cada vez mais perto. E quem se afasta da ilha, de regresso à povoação pode dar-se por satisfeito por estar de regresso, não só da ilha, onde os turistas regressam à infância (os que já de lá saíram) tocando repetidamente o sino da igreja, mas também a terra, que disputa com a ilha aquilo que nenhum deles consegue vencer, o motivo que torna o Lago de Bled um sítio que todos têm que conhecer antes de planearem qualquer outra viagem.
Quase nem apetece escrever, quando as fotografias no mínimo igualam a escrita do maior dos poetas.
Por outro lado o Lago Bled merece ser honrado de uma forma mais elaborada do que o carregar num botão. Não serei certamente eu, mas quem escreve com a grandeza e com a expressão que quase tira o sentido à existência de fotografias (aqui todas elas são dignas de um postal) deverá honrar este paraíso escondido. Um dos muitos espalhados pelos cinco continentes, não sendo, seguramente apenas mais um. É um dos que tem de figurar nas compilações feitas por quem dá a volta ou Mundo ou gradualmente vai descobrindo as maravilhas que ele tem para nos oferecer.
Fica o conselho a todos os viajantes que acrescentem o Lago ao seu roteiro.



Cheguei a Belfast, depois de alguns dias numa Dublin pouco interessante e que deixa a ideia de que o seu topónimo devia mudar para Guiness City, tal a dependência da famosa marca de cervejas para manter a cidade animada, dinâmica e atractiva.
Dá a ideia que Belfast fez um pacto com as nuvens e que, depois de um longo processo de negociação chegaram a um acordo: só chove de dois em dois dias.
Poucos dias antes, tinha havido um atentado na cidade, mais um encabeçado pelo IRA, cuja sigla é um curioso indicativo para nós, que a lemos em português.
Há uma ligação mecânica entre o estômago dos britânicos e as cadeias de fast-food. O Jamie Oliver bem se esforça para alertar para os malefícios deste tipo de alimentação mas, vemos no seu programa os paizinhos levar esse tipo de comida, de sabor universal - se tivermos em conta que têm o mesmo saber em Londres ou no pequeno Djibouti - à porta das escolas. A imagem de ver uma criança, ainda no carrinho, mergulhar uma batata em ketchup com a mesma naturalidade com que certamente levará a chucha à boca (ou será uma McChucha?) tem tanto de chocante como de alarmante.
Esperava encontrar Belfast do mesmo modo que há três anos encontrei Bratislava: uma cidade cinzenta, suja e destruída, que parece ainda viver em estado de sítio. A verdade é que a capital da Irlanda do Norte foi uma das mais agradáveis surpresas que uma cidade já me proporcionou. As mulheres são bem mais bonitas que as da República da Irlanda (ou terei tido sorte?) e vestem-se e comportam-se de uma forma bem mais sofisticada.
Belfast apresenta-se como um paraíso para as compras. Pois eu, que por norma entro numa loja de roupa com a mesma alegria de quem acaba de receber um belo presente de um pombo, não resisti à tentação e comprei roupa numa daquelas cadeias internacionais que também podemos encontrar em Portugal. Como se diz na gíria lusa, os preços são em conta...
Um percurso orientado por um ex-preso político, apoiante de uma Irlanda do Norte independente (o mesmo que o IRA e o Sinn Féin - "nós mesmos" na língua irlandesa - defendem, mas de um modo mais... ponderado) deixou a ideia de que o propósito político tem um peso bastante superior ao religioso, nas reivindicações dos independentistas. A retórica do guia era, obviamente, extremamente parcial mas não deixou de ser elucidativa em relação à opressão violenta, que chegou a resultar em mortes, que tem sido executada por Sua Majestade.
Imagine-se duas linhas praticamente paralelas, sendo o espaço entre elas preenchido por arame farpado, uma metáfora física para mortes, ódio e repúdio. Essas linhas paralelas são as ruas Falls Road (habitada por católicos republicanos) e a Shankill Road (dos protestantes unionistas).
Esta rivalidade sem fim à vista é a imagem de marca da cidade - a única, atrevo-me a dizer - que passa para o resto do Mundo. Mas a verdade é que encontrei em Belfast uma população extremamente afável, semelhante aos portugueses na paixão pela cerveja e pelo futebol (e mea culpa faço...), de riso constante. Posso dizer que é tão frequente ver um habitante de Belfast sorrir como vê-lo com um saco de fast-food na mão o que, problemas de obesidade à parte, acaba por ser um retrato bastante lisonjeiro.
Imagine-se que conheci um bar tender de um pub que fez erasmus (a universalidade deste início de frase...) em Portalegre, no Alentejo. Apetece dizer que o Mundo é pequeno e apetece dizer a todos os povos que vivem em ódio, que o Mundo é pequeno mas cabemos cá todos.
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Castelo de Belfast
Falls Road (católicos / republicanos):
"Brits out - not sell out" - uma forma muito compacta de dizer: "Britânicos fora, a nossa integridade não está à venda".
o autor dos murais anteriores, aqui a ser entrevistado enconstado à sua réplica de Guernica
Shankill Road (protestantes / unionistas):

Os murais dos unionistas são em menor quantidade mas duma expressividade incrível. No canto inferior direito, as duas setas a apontar para a esquerda dizem: "Eire" (República da Irlanda) e "war" (guerra); as da direita dizem: "United Kingdom" (Reino Unido) e "peace" (paz). Note-se a figura que está desenhada em cada um dos lados das setas.
esta é uma daquelas imagens que vale mais do que mil palavras...

no canto superior esquerdo, com os número 7, 8 e 9, Shankill Road. Com os números 10, 11 e 12, Falls Road. Para ir do ponto 11 para o ponto 7, tem que se percorrer toda a rua, até à rua do lado direito que une Shankill Street e Falls Road. Fiz o teste de perguntar a um segurança de um centro comercial de Falls Road como podia ir para Shankill Street: ele pegou no mapa, muito embaraçado e nervoso, explicou o trajecto e aconselhou a não perguntar a mais ninguém durante o caminho...


